Cotidiano e política

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Estou cansado de ficar ouvindo indivíduos, chamados de especialistas, ficarem palpitando sobre os mais variados assuntos. Pra todo lado, o que se vê é uma interminável fila de pessoas com uma autoridade inventada abrindo a boca, e invariavelmente, para falar idiotices. Quem tem a maior parcela de culpa são, mais uma vez, nossos queridos jornalistas e seus editores. Mas nem de longe são os únicos culpados.
O que faz aquele jornalista burocrata, do “embrulha e traz”, do fala que eu publico? Se for fazer uma reportagem, por exemplo, sobre um abrigo de crianças e adolescentes, ele já sai da redação com uma pauta pronta: Entrevistar uma ou duas crianças, um funcionário e uma autoridade. Se der, entrevista o diretor, ou o responsável maior pelo abrigo. É dessa maneira pra tudo. Agora, o que a autoridade, nesse caso (real) era o secretário de “educação e sei lá mais o que” da cidade do Rio, sabe sobre o estado do abrigo? Praticamente nada. Só a parte burocrática e administrativa. O jornalista é burocrata, mas não é burro. Ele sabe disso. Só que também sabe que, geralmente, os funcionários não são autorizados a darem entrevistas. E que, em organizações, governamentais ou empresarias, tudo é centralizado para os relações públicas da vez.
Esse modo de fazer reportagem moldou nossa maneira de pensar. Quando descobrimos algo novo queremos logo saber o que um especialista diria. Em 80% das reportagens são entrevistados especialistas ou autoridades sobre o assunto. Muitas vezes, são especialistas de outra coisa, mas como o assunto é parecido, pode ser aquele mesmo. E o que eles fizeram para serem chamados de especialistas? A gente pensa que eles estudaram anos. São professores, doutores e pesquisadores, não é? Mas, infelizmente, a palavra especialista é usada sem critério algum, e muitas vezes, apenas para dar maior veracidade e corpo a uma reportagem, ou tese.
Quem pode dar o título de “especialista em sexo na terceira idade” para alguém? Tá, acabei de inventar isso, mas não me parece algo assim tão longe da realidade. Os únicos especialistas nisso que eu consigo imaginar são o Hugh Hefner e o Kid Bengala. Pra quantos velhinhos alguém tem que dar pra ter esse título? Quem tem autoridade para chamar outro indivíduo de autoridade em alguma coisa? Será que só os especialistas podem nomear outros especialistas? Mas como o primeiro especialista se tornou especialista? Deve ter se auto-declarado, não? É por isso, que a partir de agora, eu me declaro Especialista Geral. Como possuidor de um PC, com internet banda-larga e acesso ao Google, tenho todos os conhecimentos do mundo a alguns bytes de distância.
Pensando bem, com a internet do jeito que é, não me parece algo positivo arrumar briga com os poucos especialistas que estão por aí, certo? Hoje, qualquer um escreve qualquer porcaria sobre qualquer coisa, e instantaneamente isso fica disponível para o mundo todo. Mas não é por isso que aceitarei a enganação do “especialismo” para confirmar seja lá o que você quiser confirmar. O especialista é um enganador nato, que precisa ser necessário. Se ele não enganar, falar difícil e se mostrar como um profundo estudioso do seu extremamente importante assunto, ele acabará como o inútil que vem se tornando, a cada dia mais. Por isso, seja você também um Especialista Geral. Quem sabe você não descobre que sabe muito mais sobre alguma coisa do que o chamado especialista.
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Numa esquina movimentada de São Gonçalo reside um dos maiores mistérios da humanidade. Não, não é um buraco negro de verdade. É apenas um buraco, que é negro. Eu disse que é um mistério da humanidade, não da ciência. O mistério desse orifício esquecido pode ser óbvio para nós brasileiros, mas provavelmente inexplicável para grande parte do mundo.
Um buraco no asfalto. A maioria dos brasileiros o taxaria assim. “Culpa da prefeitura”, diria o candidato da oposição. “Darei um jeito nisso”, diria à população. Acontece que esse buraco, assim como a maioria das ruas de São Gonçalo e das cidades brasileiras, é constantemente ajeitado. Sempre dão um jeito nele. Nunca o consertam.
E cadê o mistério? Fora a inexplicável capacidade dele de reaparecer, semanas após ser asfaltado, fica a grande pergunta: Por que não o consertam de uma vez? Pois é. Por quê? Por que não consertam logo o Brasil? Todo mundo diz que irá consertar tudo, mas no final, no máximo dá um jeito. A lógica não existe, pois com certeza, se o dinheiro gasto com o constante jeito no buraco fosse gasto de uma vez para consertá-lo, o problema sumiria face da terra.
Acontece que nossos querido políticos vivem desses obrinhas. Consertar pra quê? Ninguém no Brasil conserta nada. Dá um jeito nessa porcaria pra parar de encher o saco um pouco. Sua sala é pequena? É só tirar o bode da sala! O grande filósofo anônimo (procura-se autor), com sua matemática assistencialista, já disse que “para quem não tem nada, metade já é o dobro”.
Flavio Dessandre
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